A gigante do setor de energia e combustíveis, Raízen, finalmente abriu suas cartas para os credores. Após semanas de intensas negociações em busca de uma recuperação extrajudicial, a companhia divulgou, na última quarta-feira, os termos preliminares de sua proposta de reestruturação.
A Raízen acumula uma dívida colossal de cerca de R$ 75,3 bilhões, sendo R$ 65,4 bilhões passíveis de renegociação. Esses números refletem quase todo o passivo financeiro da empresa, que inclui:
A magnitude dessa dívida destaca a urgência da reestruturação, que vai além de um simples refinanciamento. A empresa propõe mudanças substanciais na sua estrutura financeira.
O primeiro passo da estratégia envolve resolver o elevado custo da dívida. No primeiro trimestre de 2026, a Raízen reportou uma queima de caixa de R$ 3,3 bilhões, impulsionada principalmente pelos pagamentos de juros, que chegaram a R$ 2,9 bilhões. Esse cenário insustentável força a empresa a reavaliar suas opções.
A proposta inclui a redução da dívida, alongamento dos prazos de vencimento, e a injeção de capital novo. Para isso, a companhia contará com o suporte financeiro dos acionistas controladores.
A Shell se comprometeu a investir R$ 3,5 bilhões, enquanto a Aguassanta, o family office do empresário Rubens Ometto, aportará mais R$ 500 milhões. O novo preço de referência para a ação RAIZ4 será de R$ 0,25, que também serve como base para a conversão de parte das dívidas em ações.
A proposta da Raízen combina dois elementos principais:
Essas mudanças transformarão os credores em acionistas, alterando a dinâmica de seus investimentos. A proposta de conversão acontece a R$ 0,25 por ação, com entregas em units, que reúnem ações ordinárias e preferenciais, normalmente identificadas na bolsa.
Além disso, a empresa poderá lançar ADRs (Recibos de Ações) para atender credores internacionais, buscando um tratamento equitativo para todos os investidores.
A reestruturação prevê também o alongamento dos prazos de vencimento da dívida, oferecendo juros diferenciados e mais flexibilidade para a Raízen. A divisão da dívida entre duas novas entidades surgidas pós-reestruturação trará novos contornos financeiros:
Os títulos na divisão de combustíveis apresentam juros superiores (CDI + 2,75% ou 8,5% ao ano em dólar), enquanto os da divisão de energia oferecerão custos mais baixos (CDI + 1,25% ou 7% ao ano em dólar).
As garantias reais são um ponto crucial da proposta. As emissões na Raízen Energia contarão com penhor de ações de subsidiárias. Já na divisão de combustíveis, ativos como plantas de lubrificantes e tanques de armazenamento garantirão a nova dívida. Credores terão prioridade sobre esses ativos e cláusulas que restringem a empresa de oferecer garantias similares a outras partes.
Além disso, a proposta contempla a possibilidade de pré-pagamento das dívidas sem penalidades, o que pode se traduzir em uma estrutura de dívida mais vantajosa para a empresa.
A Raízen também apresentou duas alternativas para os credores:
Opção A: O caminho principal, onde a dívida é reestruturada com as medidas já mencionadas.
Opção B: Um caminho agressivo, com um desconto de 80% sobre o valor da dívida, onde o pagamento futuro ocorrerá apenas em 2047.
Se a demanda por pagamentos exceder o valor reservado, as alocações serão feitas progressivamente.
Este plano ainda não está definido. Para ser implementado, requer aprovação de mais da metade dos credores e poderá passar por ajustes nas próximas semanas. Há condições relevantes, como acordos com a Receita Federal sobre passivos tributários e um novo acordo entre acionistas, que precisam ser cumpridas.
Em meio a um mar de incertezas, os investidores e credores estão de olho na Raízen enquanto a empresa se prepara para enfrentar os desafios à vista.
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